Conto de um homem
Sol na cara monstruoso. Ego mas nunca vaidoso. Um dia comparado a mil anos, saiu lendo o evangelho. Vida e morte vale o mesmo tanto, evolução do novo para o velho. Puxava seus cabelos desdenhados, vendo a vida assim fora da cela. Não quis ficar ali parado aguardando a sentinela. A vida parecia reticente, sabia do futuro e do trabalho. Lembrou de sua mãe já falecida a verdade era seu principio falho. Pensando com rugas no rosto, olhava a massa de cimento, a sensação da massa fresca transmitia nas mãos o seu tormento. Trabalhava ganhava quase nada, fazendo frio ou calor. Sábios não ensinam mais, refletiu sua sombra magra. Com o pouco que raciocina ele orava ele orava, mas o Cristo de madeira não lhe dizia nada. E no espelho da construção, se viu como qualquer outro e sobre seus olhos a culpa, sobre suas mãos o sangue de quem um dia foi seu irmão.
Maresia
O meu amor me deixou, levou minha identidade. Não sei mais bem onde estou, nem onde a realidade. Ah se eu fosse marinheiro, era eu quem tinha partido, mas meu coração ligeiro não se teria partido. Ou se partisse colava, com cola de maresia. Eu amava e desamava. Só mesmo com poesia. Seria doce meu lar, não só o Rio de Janeiro, a imensidão e o mar. Leste, Oeste, Norte e Sul. Onde um homem se situa. Quando o sol sobre o azul, ou quando o num mar a lua. Não buscaria conforto, nem juntaria dinheiro. Um amor em cada porto. Ah se eu fosse marinheiro! Não pensaria em dinheiro, um amor em cada porto. O meu amor me deixou, levou meu coração junto com sua roupa que eu mesma passava. Levou meu amor, deixou o que sobrou. Levou meu amor, deixou dor. Ah se eu fosse marinheiro!
porque é bom falar em independência de caráter
Quando minha boca deixa de falar, e meus punhos ocupam o seu lugar. Esses insensatos não vêem que o cargo não tem a mínima importância, porquanto aquele mesmo que ocupa o primeiro lugar tão raramente desempenha o principal papel! Não sou bom no que faço, mas melhor que eu não existe. Não é convencimento não, é a verdade. Se existir gente melhor do que eu ao longo do mesmo exercício,me digas, porque eu procurei, procurei e não achei. Mas sei que quando faço, o meu melhor é dado. Os meus defeitos são meramente grandes defeitos. Não me avises se quebrarei ou não a cara. Isso quem deve saber, sou eu. E se quebrar deixe arder! Uma hora passa. Pelo menos eu espero que passe.Existe seres miúdos ao meu redor que me querem o mal. Pode falar que não querem, que isso não condiz a nada, mas eu sinto. Sinto que eles querem o mal. Só não assumem. É de a gente enterrar um punhal no coração, porque é bom falar em independência de caráter. Queria, no entanto, ver alguém capaz de ouvir, sem ligar a mínima importância, o que dizem os patifes a seu respeito. Quando o que eles propalam não tem fundamento, aí sim, a gente pode deixá-los latir à vontade.
Emaranhados
Vejo altear-se diante de mim as montanhas para as quais tantas vezes me senti atraído. Cheguei a ficar neste lugar horas inteiras, desejando ardentemente transportar-me até lá, mergulhando com toda a minha alma naquelas florestas, naqueles vales que, tão cheios de estranha sedução, envolvidos pelos véus vaporosos, se ofereciam aos meus olhos. A tentação me servia e aos poucos me seduzia fazendo com que eu cedesse-a. E, quando era chegada a hora de regressar a casa, com que tristeza eu me afastava deste lugar querido. As lágrimas escorriam supostamente em meu rosto. E o doce vento as secava rapidamente.
Conta-se que há uma briosa espécie de cavalos que, perseguidos, quando se vêem demasiadamente excitados tem o instinto de abrir unia veia com os dentes para não rebentarem sufocados. Sinto às vezes vontade de fazer o mesmo: abrir uma veia e conquistar assim, para sempre, a liberdade. Para que ninguém mais me sufoque, seja com palavras, gestos ou simplesmente com olhares. Quanto ao resto, eles gosta mais da minha inteligência e dos meus talentos do que do meu coração. Se é que tenho inteligência. A única coisa, entretanto, de que sou cioso e que é a fonte da minha força, da minha felicidade e de todo o meu sofrimento. Ali! O que eu sei, todos podem saber, meu coração, porém só eu, mais ninguém pode possuí-lo.
Engano teu!
E eu acreditava fielmente que eu nunca encontraria uma metade. Julguei inconveniente mulheres que deviam sim ser julgadas. Acreditei e busquei sonhos em pessoas que eram vazias. Em meio de uma multidão de estranhos completamente estranhos ao meu coração, não tive um único momento em que o meu coração me impelisse a escrever-lhe. Eu te amo. Eu te quero. Não imaginava que uma garota como você, poderia fazer o estrago que está fazendo. Estrago bom. Menina ainda, mas com alma viril mulher. Eu te amo, e isso não afetará em meu exercício o quanto és mais nova do que eu. E isso não interessas a ninguém, a não ser a nós dois. Venha até mim. Se não vier, eu vou até você. Para lhe dar um beijo nessa sua boca bonita. Das poucas, ou nenhuma vez que te vi, já sinto uma saudade, uma vontade e um sentimento que não tens explicação. Deixais seu coração escolher. Não descansarei enquanto não estiver em meus braços. Seu lugar é aqui. Diante os meus olhos ou sobre meus sapatos.
jejum
Meu corpo ferveu. Ferveu sangue. Borbulhava como coisa inexplicável. Não demonstro. Nem demonstrarei. Ninguém viu e não desconfiaram. Não me venha com meios termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha com o que for, menos com qualquer coisa. Venha até mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar. Venha louca de paixão que eu sei que você tem guardada aí dentro. Dentro de si. Só não solta esse sentimento diferenciado. Talvez por medo. Se você não vier, eu vou. Você se entrega. Linda e sedutora. Doce e amarga. Louca e ainda mais linda. Espécie de mulher que me deixa louco. Louco de tudo. E nesse jejum de palavras nos encontramos mesmo que sem querer, mesmo que por querer.
Romeu eu e Julieta
Ao fundo um bolero cantarolado sem grandes pretensões. Sonhos consumados e dizimados por dois ninguém. Talvez pela ausência. Acabou o gosto do sacolejo e da risco de ser pego. Acabou o gosto do escondido. Eu descobri aquilo que restava ser descoberto. Você, meu caro amigo mata minha mulher cuja é sua amante. Fez bem feito. Se delicia no sangue adocicado dela. Eu proponho um brinde meu amigo. Você a desfez. Foi bonita a cena. Sei que estava com sede. Beba mais um pouco! Espumante francês é o melhor da safra. Não necessita de se limpar. Para estampar as capas do jornal é melhor assim. Ela morta pela lâmina e ele pelo veneno. Como um Romeu e Julieta. Era o mínimo a fazer. Ele, meu amigo, amante de minha mulher a mata e depois morre com o melhor veneno.
Pelos ares
Não lhe peço nada mais se acaso você perguntar. Por você não há o que eu não faça. Guardo inteiro em mim a casa que mandei um dia pelos ares. E a reconstruo em todos os detalhes, intactos implacáveis. Eis aqui, bicicleta planta céu. Estante cama e eu logo estará tudo em seu lugar. Eis aqui, chocolate gato chão espelho plano e calção no seu lugar, pra ver você chegar. E novamente, não lhe peço nada mais se acaso você perguntar. A neblina que caiu sobre nossos sorrisos, e ofuscou o que era puro. E nesse retrocesso e curvatura de planícies, retorno ao que um dia foi meu. A vida que sempre levei era um ensaio geral para que na hora do espetáculo fosse tudo certo, isento de erros e de amor.
se pelo menos,
As vezes fico tão feliz e tão feliz e as vezes tão triste em relação a você. Feliz por te ver, te abraçar, por mais que seja rápido e contra a sua vontade, poder sentir ou ouvir, nem se for um ''oi'' simples, fajuto e curto. O meu sorriso fácil não deflagra a solidão na qual me encontro. Os clichês são os de sempre: alguns gestos, um olhar, um novo corte de cabelo e uma música cantarolada sem grandes pretensões, tipo de coisa que não faz muito sentido, mas que na presença de Deus e o universo e outros seres mitológicos como o amor, fazem toda a diferença. Apesar das condições, apesar desses pequenos absurdos cotidianos, parecia coerente apaixonar. Não são sentimentos meus, nem seus, são de ninguém, coisas e seres inexistentes. Se você perguntar vou dizer que estou muito bem. Que só deixei o banco por causa do frio, que não tinha nenhum problema em vê-la novamente. Se você me perguntar se estou bem, eu vou dizer que estou o mesmo, um pouco mais gordo ou mais magro. Que mentira! Estou bem diferente, estou doente, doente de amor, como uma urtiga distante da violeta. Não quero sugar todo o seu leite, nem quero que você entenda o meu ser. Apenas te peço que respeite o meu louco querer. O teu corpo combina com o meu jeito, nós dois fomos feitos muito para nós dois. Não valem dramáticos efeitos. Você seria minha exceção, meu calor, meu fogo, meu ardor, minha dor, meus valores, defeitos e qualidades. Você seria minha, se pelo menos você existisse.
sentir você, em mim
Não se tem mais sossego. Senti você essa noite, acordei roxo de saudade, queria te abraçar. Beijar também, mas principalmente abraçar, longa e repentinamente. Deixar que os poros da pele trocassem planos e sonhos por entre os quais se viaja nós mesmos, com tão estúpidos sentimentos de posse. Enquanto por si só, pelo momento de troca de palavras, olhares e outros sentimentos inúteis. Por si só se troca o além, o transcendente, a barriga gela e nos vemos bobos, imóveis [...]
[...] mas aí, hoje, quando senti você, seus poros e sua cor tinham um cheiro bom, temperatura agradável, era gostoso o seu cabelo, eram macios os seus lábios, não sei porque, mas seus pés faziam lembrar uma bailarina em plongeé - costas ao chão, apontavam para o céu, daqueles movimentos que não fazem sentido, mas na presença de Deus e o universo e outros seres mitológicos como o amor, fazem toda diferença.
Parece estranho, nos vimos umas poucas vezes, mas já sinto sua falta. Não importa com quem você se deite, que você se deleite seja com quem for. Apenas te peço que aceite o meu estranho amor. Se você perguntas por mim, vão dizer que ando por aí, que estou morando aqui e que já não sou mais um homem como os outros, ligados ao mundo lógico dos impostos e dos pequenos ódios conjugais. Eu não saberia dizer o por quê, e nem conseguiria te dizer, mas eu te amo porque te amo. Essa noite quero tudo em excesso, covardia e egoísmo. Ficar com seu cheiro, lamber, colher, sentir você em mim. A sua espera, apenas te peço para que eles façam menos barulho, porque não tenho mais sossego.
A volta de quem nunca se foi
Nada foi perdido enquanto aqui ficou coberto por poeiras. O tempo disse para minha consciência para que o tempo fosse dado em pequenas doses. Derramei sobre meu corpo tudo que havia, o gole amargo queimava a garganta e gelava o coração. Ora! Pequenas doses! Vai tudo de uma vez! E foi. Evolução do novo para o velho. Não quis ficar ali parado aguardando a sentinela. A vida parecia reticente. A verdade era o princípio falho. Pensando com rugas no rosto, olhava para o espelho da construção e o que vi foi minha cara de menino criança procurando amor com as mãos. Evolução do velho para o novo. Enquanto o mundo se acabava em guerras e disputas ainda procurava o amor. Sempre procurei mesmo que já tivesse achado. Sabia que tinha mais. Portanto volto com consciência de que sempre estive aqui, analisando e pensando no que me move e no que me leva a fazer o que faço. É a vida me cortando a carne com seu guizo. Ecoando pelos séculos os sons de alguns gemidos.
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