Rascunhos, Retratos, Contemplações.
Sinto dizer que amo mesmo, não dá para disfarçar. Entre nós dois, não cabe mais nenhum segredo, além do que já combinamos. No vão das coisas que agente disse. Não cabe mais sermos somente amigos. E quando eu falo que eu já nem quero, a frase fica pelo avesso, na contra-mão. E quando finjo que esqueço, eu não esqueci nada. E cada vez que eu fujo eu me aproximo mais, e te perder de vista assim é ruim demais. E é por isso que atravesso o teu futuro e faço das lembranças um lugar seguro. Não é que eu queira reviver nenhum passado, e revirar o sentimento revirado, mas toda vez que procuro uma saída, acabo entrando sem querer na sua vida. Talvez seja porque eu te amo e não queria te perder. Talvez porque eu não consigo mais viver sem você.
Sete mares
Me esquenta com o vapor da boca e a fenda mela. Imprensando minha coxa na coxa que é dela. Dobra os joelhos e implora o meu líquido. Me quer, e que ver meu nervo rígido. Eu sobre o colchão, enrijecia os músculos, franzia o cenho e gelavam as têmporas. Roer, revirar, tecer, retorcer, lambuzar e deixar o seu corpo tremendo, gemendo. Me fez levitar em meio aos sete mares e me pediu para que lhe amasse, mesmo que fosse apenas naquela noite, ela pediu para que lhe amasse com todos os meus mais puros sentimentos, com todos os meus mais puros órgãos e misturas que ali me compunham. Cinta-liga, perna dura, dorso quente, toda língua e me atravessou, me encochou, me apertou, provocou e me amou. Foi nesse longo repentino momento que vi que era aquela, a mulher que iria me amar pelo resto dos tempos.
A culpa é do destino
O destino me pregando outra peça, eu não queria. Me cercava toda noite com sua flecha e sua guia. Era o tempo me encostando sua pele traiçoeira. Eram noites tão pesadas com nuvens sorrateiras. Era a vida me cortando a carne com seu guizo. Ecoando pelos séculos os sons de alguns gemidos. Eram os meus antepassados dentro dos bacanais. Era o tempo me emprestando aquilo que eu não devolveria mais. Era uma mulher nos meus sonhos me sem perdão Eram duas velhas mortas se arrastando pelo chão. Eu soltava os meus cães e meu peito a soluçar. Abafava os meus gritos quando um sabia ladrar. Achei que não era eu que fazia minha história andar. Põe a culpa no destino e quem estivesse amor para culpar. E era assim. Hoje em dia não importo com o que fiz do meu passado. E não rebato se disserem por aí que eu estou errado. Porque que se debate está sozinho ou afogado. Eu que não fico no meio, não começo e não acabo. Essa natureza que quer romper e resistir. Energias que desorganizam os órgãos, intensidade pura em plena produção desejante. Se não amor, loucura seria o nome disso.
Em você.
Me escondi para não ter que ver você dizer coisas que eu não merecia ouvir. Era você, ou eu. Escolhi o pior o lugar para me esconder. Tranquei por dentro de você e não sei mais sair. Pela rua, penso em ti. Volto em casa, penso em ti. No trabalho sem querer, quando vejo estou pensando em você. E surgi de onde não imaginei e aprendi que eu nunca sei enganar meu coração. Escrevi frases soltas pelo chão, esperei você dormir para jurar minha paixão. Eu rezei para que seus olhos não fossem de mais ninguém. E chorei, por medo de algum eu te perder.
Achei que não era eu.
Por você eu dei o que eu não tive. Sonhei por tanto tempo em ser livre. Hoje, peço que me prenda em seus braços. No encontro dos dois, passos em paralelo, encontram-se as palavras, o vento descobre as janelas, solta os panos, levanta o resto do pó. Revela os rostos sobre os sorrisos. E nós nos revelamos-nos nos gestos, nos olhos, no que dizemos, no que resta e se junta na fadiga dos movimentos dos passos. Eu já não sei respirar quando estou ao lado seu. Você é aquela mulher escondida nas letras de tantas canções. Escrevia longas cartas para ninguém. Escrevo longas cartas com os olhos. E meu peito a soluçar abafava meus gritos quando não sabia o que falar. Achei que não era eu que fazia minha história andar. Achei que não era eu que amava sem saber quem iria amar.
Retrocessos.
Os prazeres que me fogem a mente, e que fogem das minhas mãos. O contrário, a pintura, a tristeza. Ela dança no sétimo céu. Eu ainda decoro meu papel, apesar de estar em branco. Agora está tudo acabado. Agora que eu não posso mais caber em ti. Dizem que você não quer mais me olhar. Se você não me escuta, eu não vou te chamar. O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar. O amor só mudou de cor, agora já está desbotado. De desgosto ando sobrevivendo e vivendo. Seus olhos brilhantes saíram de minha rotina. E sinto falta das suas implicâncias. Sinto falta do seu corpo sobre o meu. Desse nosso corpo que junto, formava um só. Quando você me perguntou porque eu apontava para você, eu soube que era o momento de lhe dar a resposta. Vi você sobre o piso da sala. E uma poça de sangue engolia o chão branco. Assistia tudo sentado sobre minha poltrona confortável, comendo o pão com geleia de frutas funestas que você acabara de fazer. Uma pena. Não sabia que teria o mesmo destino que você. Do mesmo veneno que fiz você sentir, você sorrateira me fez provar. Ou era eu, ou era você. Fomos o nós. Nada mais justo.
Na cama com elas.
No sufoco das tormentas que andam me contradizendo. A saudade é a minha dor que me deita na cama e me afaga com suas perversas palavras. E no jogo de cintura e sedução, me deixo levar pelo momento, pelo resto de tesão que ainda havia escondido sobre meus olhos. E do mesmo veneno que tanto distribui para as alheias, me dopei. Mesmo compreendendo, eu ainda não sei como é. Mesmo compreendendo, meus olhos me viram ao avesso. Me vejo imóvel, com um molejo natural da língua. Com um molejo artificial do coração. Me vejo imóvel, deitado sobre meu lençol branco com todas aquelas cobertas com todas elas. Com elas que eu não sei quem são. O inverno está indo embora, mas o ar insiste em permanecer frio.
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