Graça desgraça



Não me pergunte nada. Se no contrair do músculo facial seu rosto se desconfigura devagar, eu gozo rindo da desgraça. Fiz questão de apresentar a morte e o medo para você. Tanta confiança em um ser capaz de trair. Tanta confiança em um ser incapaz de amar. E relembro do que fizestes comigo e com meu rosto hoje desfigurado. Não consigo amar. Nunca consegui, sempre escondi, mas esse não é o grande problema. O grande impertinente problema é a falta que sinto do meu sorriso antigo. Afinal, um dessorriso não significa inferioridade, e sim a falta de vontade do meu lábio em lhe contemplar com falsidade. Falsidade que hoje se resume em mim. Mas não tente me arrancar sorrisos, porque o que eu preciso não é de alguém que me faça rir, e sim de alguém que ria comigo daquilo que hoje eu julgo ser engraçado. Para mim hoje, só a desgraça tem graça. A minha desgraça, cujo você foi o feitor, por alguns longos instantes eu chorei, mas agora rio. Porque se eu for chorar hoje, escorrerá sangue dos meus olhos. Se hoje estou mau, amanha estarei muito pior. É a contradição humana.

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