Na terra do coração, passei o dia pensando. Pensei e pensei, tanto que o meu coração deixou de significar uma forma, órgão, uma coisa. Batia e rebatia, escondido no peito. Então, fechei os olhos e viajei. E como quem gira num caleidoscópios, ou em um brinquedo rodopiante de parque de diversões, vi.
Vi que meu coração é um sapo rachado, viscoso e cansado à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe. E o beijo foi dado. Meu coração é um album de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traças, amareladas com o tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para um fotógrafo invisível. Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração não tem forma, apenas som. Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, colorisíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um sorvete colorido, de todos os sabores. Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias. Quadros com grandes gramados verdes e casas cobertas de tinta branca. Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radioativos. É um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor. É um poço de mel, e um barril de fel. Faquir involuntário, cascata de champagne, sapato de sola furado, versos de Mário Quintana, vitrine vazia, navalha afiada, amor, figo maduro, papel crepom, ruína, fogo. Aceso. Vasto, vivo. Enfim, meu coração é seu. Inteiramente seu, sem ter ninguém para dividir. Eu te amo

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