Vaso vazio
A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Fez-se em mais pedaços do que um espelho quebrado. Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada. E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. Não se zanguem com ela! Sejam ao menos tolerantes. Afinal, o que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes. Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária. Gorgeiem do gozo de ver um vaso espatifado ao chão. Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros. Um caco. E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali. Uma parte de mim que não sou eu, mas não deixa de ser minha. É você, que brilha apesar de ser um pedaço. Sem você por mais que nada fizeste, eu seria apenas alguns pedaços de vaso vazio.
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